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GENTE DA TERRA 12 de janeiro de 2026

Entre o passado e o futuro: o que moradores de Belém desejam no aniversário de 410 anos da cidade?

Quem faz o dia a dia da cidade revela suas histórias com a capital paraense
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Vista aérea de Belém, capital do Pará. Bruno Cecim/Agência Pará
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Feliz Lusitânia, Paris n’América, Cidade das Mangueiras. Em 410 anos, a capital paraense recebeu diversos nomes e teve cada página de sua historia escrita por ribeirinhos, indígenas, caboclos, migrantes e imigrantes.

No aniversário da cidade, moradores que fazem o dia a dia de Belém compartilharam com o Pará Terra Boa seus desejos para esta data tão especial.

Tiago de Jesus é uma das centenas de trabalhadores que fazem parte da Feira do Açaí, por onde chegam toneladas de açaí in natura todos os dias. O transporte é feito em paneiros, cestos de palha com capacidade aproximada de 15kg.

Movimento na Feira do Açaí, em Belém. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Nasci na Ilha das Onças (região próxima a Belém) e desde sempre fiz esse caminho, meu pai e meus tios atravessavam açaí todos os dias. Pra gente, Belém é calor, correria, turista misturado com feirante, repórter”, narra.

Atualmente ele vive em Belém com três filhos e a esposa, expandindo o negócio da família e distribuindo o fruto para pontos de açaí e restaurantes. Para Tiago, Belém vai além de uma segunda casa, mas também é berço da continuidade da sua jornada.

“Belém parece a maré, quando tu te espertas, já te pegou. Sempre me senti bem recebido, mas agora com mulher e filhos fazendo a vida, estudando, fazendo faculdade vejo que também é um berço de oportunidades pra quem vem dos rios. A gente nem precisa contar muito a luta quando diz que veio das ilhas, as pessoas já compreendem de cara”, diz.

Jacira Coelho vende comidas típicas no bairro do Guamá, considerado o mais populoso de Belém pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre as mais de 100 mil pessoas que vivem e trabalham no local, ela cresceu, criou os filhos e agora celebra os netos com o lucro dos sabores tradicionais.

“Toda minha vida é aqui em Belém. Nasci no Guamá e já morei em outros bairros, mas me sinto mais feliz aqui. Amo viajar e conhecer outras cidades no nordeste, sul, sudeste, mas o gostinho de estar em casa é diferente, é lembrar de toda a minha vida e do que a gente conseguiu crescer, meu neto diz que é nosso legado”, comenta.

Vendendo comidas típicas, ela diz que um ponto de conforto é conhecer toda sua cadeia produtiva: da origem dos insumos os clientes. Dessa forma, a venda de refeições deixa de ser apenas apenas uma forma de sobrevivência, mas também de interação e alegria.

Tacacá, Vatapá e Maniçoba são alguns dos principais pratos típicos da região. Foto: Arquivo/Agência Pará

“Sei de onde vem meu jambu, minha maniva, meu cupuaçu. Isso é bom porque além de apoiar o compadre, a comadre, gente vê tudo crescer junto. Quando a demanda aumenta, todo mundo ganha mais e quando diminui a gente sai se recomendando pra não sair no prejuízo. É um cordão onde todo mundo se ajuda dentro do que dá, diz.

Qual é o grande diferencial de Belém?

Para Jacira, uma das grandes qualidades de Belém é o sentimento de igualdade. Ela explica que mesmo com diferenças sociais, alguns sentimentos e preferências são comuns em todos os moradores.

“O que eu mais amo é que não existe lugar só de rico e só de pobre, sabe? Tu vais em Mosqueiro, Cotijuba (ilhas que possuem praias muito procuradas no veraneio) e acha gente de todo tipo brincando junto. Até mesmo na Estação das Docas que dá muito turista tu vês todos misturados, ninguém fica olhando dos pés a cabeça te medindo”, conta.

Já Tiago destaca o acolhimento e a sensação de proximidade. Para ele, não há como se sentir só na capital paraense.

“Tu podes estar resolvendo um problemão ou indo passear com a família, sempre vais esbarrar com alguém que conhece tu ou tua família e trocar aquele abraço ou saber alguma novidade. Pra mim não existe solidão aqui, é impossível se sentir sozinho seja na tristeza, na alegria ou pra levantar uma laje em casa no fim de semana”, diz.

Presente e futuro

Nascida no bairro do Jurunas, Caroline Leão dá aulas de Estudos Amazônicos na rede estadual de ensino para crianças e pré adolescentes. Além da bagagem profissional que explora a história regional, ela também leva para a sala de aula a vivência de crescer em um bairro onde a população é composta por descendentes de etnias tradicionais, povos ribeirinhos de outras localidades e trabalhadores da periferia.

Estudantes de escola estadual de Belém durante programação cultural. Foto: Ascom Sedeme/Agência Pará

“Eu sou muito feliz em trabalhar com algo que ajuda as novas gerações a não esquecerem nossa história. Belém e toda a Amazônia possuem um histórico de muita luta, mas também de união entre trabalhadores e povos tradicionais. Acho que um bom indício para quem quer avançar na vida passa por usar suas origens para impulsionar um futuro melhor, usando suas memórias de combustível”, comenta.

Para a professora, a cidade enfrenta desafios como toda grande cidade, mas já avançou e pode continuar avançando em muitos sentidos rumo à justiça social e responsabilidade ambiental.

“Temos problemas que o poder público pode atuar para resolver, como a remuneração justa de atravessadores e trabalhadores rurais que todo dia abastecem a cidade. Outra coisa que o poder público pode ajudar muito é em melhorar a responsabilidade ambiental com mais ações de fiscalização e punição para quem afeta o meio ambiente, mas as pessoas… as pessoas em sua maioria são acolhedoras em sua maioria. Se ver as pessoas mais velhas, muitas já praticam conceitos de sustentabilidade em suas casas mesmo sem saber. Os mais jovens a gente educa e conscientiza para ter uma nova geração mais engajada”, comenta.

Como presentear uma cidade?

“Nós somos a cidade, então presentear é contribuir com nossas ações, não acha?”

Jacira acredita que cada pessoa pode presentear a cidade com seus talentos e aspirações. Para ela, os avanços e promessas de um amanhã melhor também passam pela iniciativa pessoal.

“Eu dou meus parabéns vivendo e fortalecendo o que está aqui: meus filhos e netos vivem em a Belém, meus clientes e fornecedores estão aqui, separo o lixo direitinho, falo para os vizinhos não queimarem nada sem necessidade. Acho que viver de forma respeitosa e grata ao chão de onde a gente veio é uma forma de dar parabéns também, não concorda?”, questiona.

Para Tiago, Belém pode fazer ainda melhor ao proteger mais o meio ambiente e reforçar suas origens.

“O Belenense sabe receber muito bem e ser agradável? Eu desejo que protejam mais as ilhas, os bosques. A gente quer que a cidade cresça em turismo, mas sem esquecer que sustentabilidade e essas coisas que falaram tanto na COP também passa pela gente que atravessa açaí, peixe, fruta, verdura e legume todo dia. Eu desejo que Belém continue amorosa, mas que não deixe ninguém tirar proveito demais”, diz.

Já o desejo de Caroline é um misto de pedido e promessa, reforçando seu compromisso pessoal em contribuir.

“Vamos construir mais espaços arborizados, ações de fiscalização e punir de verdade quem prejudica o meio ambiente. Eu tô aqui completamente comprometida em fazer minha parte em formar cidadãos que amam sua terra e conhecem sua importância e seu potencial. Se cada um fizer sua parte, todos nós avançamos”, declara.

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