Por Tereza Coelho
A mais de 24 horas de barco de Belém, o município de Afuá, no arquipélago do Marajó, testa novas frentes comerciais para um fruto que é símbolo local de sustento, cultura e identidade: o açaí.
Na comunidade São José do Rio Maniva, a família de Kátia Pantoja produz vinho de açaí, fruto de uma capacitação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater).
Desta forma, o que começou com uma oficina para aprender a fermentar a polpa do açaí em 2025 se transformou em produção sob demanda com alta margem de lucro.
Ao lado do marido, Giovanhi e das filhas Rita e Geovanna, a família está na terceira safra do vinho feita de forma totalmente artesanal. Kátia explica que a alta aceitação associada à margem de lucro virou incentivo para ampliar o trabalho.
“O açaí é do nosso lote, recebemos apoio técnico e minhas filhas também estudam áreas relacionadas. Além disso de ser um sinal muito bom pra começar, nossa produção é praticamente toda encomendada enquanto produzimos a remessa. Para mim, isso é um grande sinal verde pra continuar e melhorar ainda mais nosso trabalho”, conta a empreendedora.
Margem de lucro elevada
Cada produção rende entre 28 e 30 litros da bebida, comercializada nas versões ‘suave’ e ‘seca’ em garrafas de 750 ml vendidas a R$ 60. A margem de lucro estimada ultrapassa 50%, o que anima quem vive da agricultura familiar.
“É uma grande oportunidade que está dando certo. Como estamos próximos de Macapá (no Amapá), também estamos ganhando espaço lá aos poucos. Temos muito trabalho, mas ver que está gerando um dinheiro justo e valorizando o que é nosso, o único sentimento possível é a alegria”, diz.
Ver essa foto no Instagram
Kátia diz que ver retorno financeiro prático em mais uma forma de utilizar o açaí é uma nova forma de valorizar a identidade cultural dos moradores.
“Nós produzimos na coletividade e acreditamos que o pensamento tem que ser de contribuição comunitária, vivência integrada e participação múltipla. A descoberta de mais um potencial do açaí agrega valor às nossas tradições de povo da floresta”, frisa.
Comunidade comercializa outros produtos
A empreendedora também é secretária da Associação do Desenvolvimento Intercomunitário dos Rios Corredor, Furo dos Chagas, Maniva e Outros (Adincocma), que, além do vinho de açaí, também comercializa outros produtos da comunidade, como óleos, pomadas, sabões e xaropes medicinais produzidos a partir de sementes como andiroba e pracaxi.
Para se organizar no mercado consumidor, os produtos comercializados com o selo da associação possuem uma marca própria, a Art-Mani.
“O coletivo é fundamental para crescermos aqui na região ou chegar em uma escala maior, onde Deus permitir. Daí juntamos essa produção da comunidade e temos informações sobre o controle da qualidade, para falar com total segurança para quem está comprando sobre a linha de produção. Não é porque é um produto artesanal que é feito de qualquer jeito, muito pelo contrário. Temos atenção total e cuidado com a qualidade do que estamos fazendo”, reforça.
Ver essa foto no Instagram
Incentivo
Desde o segundo semestre de 2025, uma oficina com distribuição de kits encaminhou pelo menos 20 famílias dos assentamentos federais Ilha Araraman e Ilha Charapucu para começarem a fermentar alcoolicamente a polpa de açaí, resultando em bebidas nas versões ‘suave’ e ‘seco’.
O chefe do escritório local da Emater em Afuá, o engenheiro agrônomo Alfredo Rosas, comenta que o objetivo principal das formações é ampliar e aprofundar possibilidades de trabalho, renda e valorização cultural dentro dos territórios de origem.
“Disponibilizamos ferramentas históricas, operacionais e de efetividade de políticas públicas, capacitação contínua, presença em eventos nacionais ou internacionais, assim como também acompanhamos o desenvolvimento científico dos processos e a concessão de crédito rural. O objetivo é estar perto e dar assistência em todas as frentes possíveis para valorizar a floresta e seus povos”, destaca.
Como comprar?
Os produtos que faz m parte da Associação do Desenvolvimento Intercomunitário dos Rios Corredor, Furo dos Chagas, Maniva e Outros (Adincocma) são comercializados pelas redes sociais e pelos telefones (96) 99150-5036 e (96) 98426-0922.
LEIA MAIS:
Da floresta à taça: Pará inova e cria vinho com sabor de Amazônia


