Esqueça, por um momento, os minérios e as grandes commodities. Existe um ‘PIB da floresta em pé’ que já deposita R$ 13,5 bilhões anuais na conta do Pará, movido pela força da mandioca, do açaí e do óleo de andiroba. Mais do que uma cifra impressionante, esse montante — detalhado em estudo inédito da Fapespa — é revelador de uma economia que gera quase vinte centavos de massa salarial para cada real investido, provando que o desenvolvimento sustentável na Amazônia é, antes de tudo, um excelente negócio.
O “Relatório Técnico Preliminar: Análise da Bioeconomia da Sociobiodiversidade no Estado do Pará” mapeou setores essenciais para a economia e a segurança alimentar amazônica. A mandioca lidera o ranking de produção, registrando um Valor Bruto da Produção (VBP) de aproximadamente R$ 7 bilhões. Na sequência, aparecem a pesca e a aquicultura, com R$ 2,7 bilhões, e o açaí, com R$ 1,4 bilhão.
Elaborado pela Rede Pará de Estudos sobre Contas Regionais e Bioeconomia, sob coordenação da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), em colaboração com universidades federais do estado, o relatório acende um alerta sobre gargalos estruturais, especialmente na formalização.
No caso da mandioca, embora o volume financeiro seja bilionário, apenas R$ 10 milhões figuram em registros fiscais oficiais. Isso ocorre porque a maior parte da atividade se concentra em casas de farinha comunitárias, seguindo modelos tradicionais de produção que ainda operam à margem dos sistemas tributários formais.
Novo paradigma de desenvolvimento
Para o presidente da Fapespa, Marcel Botelho, os dados são fundamentais para embasar decisões governamentais.
“A Rede de Bioeconomia é resultado de uma articulação que transcende a formação de um consórcio de pesquisa, representando uma resposta estruturada à necessidade de construir um novo paradigma de desenvolvimento para a Amazônia, fundamentado em dados robustos e cientificamente validados”, afirmou.
A análise integra-se a políticas como a Política Estadual sobre Mudanças Climáticas (PEMC), o Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA) e o Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio), que buscam equilibrar conservação ambiental com incentivo econômico.
Desigualdade na renda e o poder da organização
A pesquisa expõe um contraste severo na distribuição de riqueza. Na cadeia da castanha-do-pará, o elo mais vulnerável — os coletores que realizam a extração na floresta — retém apenas 2,9% do valor final do produto, com a maior parte do lucro concentrada na transformação industrial.
Por outro lado, as cadeias de andiroba e copaíba mostram um caminho de emancipação. Graças à organização em associações locais, essas comunidades conseguem reter entre 19% e 31% do valor final.
Segundo Atyliana Dias, diretora da Fapespa, o futuro do setor depende menos da ampliação da extração bruta e mais do “fortalecimento da organização social, da agregação de valor nos territórios e da proteção das áreas produtivas diante da crise climática”.
Multiplicadores Econômicos e Riscos Climáticos
O investimento no setor demonstra alto retorno social e econômico. Segundo o estudo, cada R$ 1 investido na bioeconomia gera, em média, R$ 1,13 no PIB estadual, além de R$ 0,19 em massa salarial e R$ 0,06 em impostos indiretos.
Esse impacto é potencializado conforme o produto avança na cadeia: o retorno sobe para R$ 1,27 na industrialização e atinge R$ 1,40 na etapa de comercialização.
Contudo, a vulnerabilidade climática ameaça esses ganhos. Relatos de comunidades em municípios como Marabá, Rondon do Pará, Santarém e Oriximiná indicam perdas em safras de castanha, cupuaçu e açaí, além da destruição de áreas por queimadas.
O relatório recomenda, urgentemente, a criação de mecanismos de fomento adaptados à economia informal e a integração de estratégias de adaptação climática para proteger a renda e a segurança alimentar dessas populações.


