Em 2026, o tradicional ‘bloco’ de Carnaval que nasce das margens do Rio Tocantins com brincantes vestidos de animais e figuras folclóricas completa 50 anos. Criado na década de 1970 na Vila do Juaba, no município de Cametá, o Cordão da Bicharada se consagrou como um ‘grito’ em defesa da natureza levando a consciência ambiental de forma festiva para todas as idades.
As primeiras fantasias foram feitas à base de lona, juta e materiais reaproveitados disponíveis na Vila do Juaba. Aos 78 anos, Mestre Zenóbio, criador do movimento, explica que a ideia não era apenas ficar semelhante aos animais por meio da fantasia, mas dar vida a eles.
“Como seria se esses bichos pudessem brincar com a gente? Eles brincam do jeito deles, mas a ideia é trazer isso pra brincadeira do Carnaval”, conta.
Antigamente, os participantes faziam trajetos que lembravam o formato de um cordão e chegavam a entrar nas casas dos moradores. Atualmente, o cortejo percorre as ruas da vila e faz parte da abertura oficial do Carnaval de Cametá, que ocorre nesta sexta-feira, 13.
Em 2025, o Cordão da Bicharada esteve na abertura da Green Zone, espaço dedicado ao público durante a COP30, em Belém. O cortejo de animais levou a cultura da região e a mensagem de preservação do meio ambiente a um espaço nunca imaginado.
“Achamos incrível quando veio a oportunidade de estar na COP, porque o Cordão da Bicharada representa também a essa convivência construtiva com o meio ambiente. Qual a melhor forma de celebrar isso do que em uma festa onde os povos ribeirinhos e os animais são as principais estrelas?”, comenta o prefeito de Cametá, Victor Cassiano.
Já para Mestre Zenóbio, além da visibilidade para a manifestação cultural paraense, um recado importante foi dado durante o cortejo na COP30.
“Igual junta com igual, quando a gente começou eram algumas pessoas fantasiadas e músicos da vila, com o tempo chegaram outros músicos, gente que mexe melhor com fantasia, fotógrafos, professores. Quando o propósito é real, de coração, vai atrair gente que pensa parecido. Nossa mensagem não foi feita pra ficar só aqui, mas pra ganhar chão e chegar em quem precisa chegar. Preservar o meio ambiente e ser justo com ele é o caminho para um grande baile onde o progresso não briga com quem vive da floresta”, diz.
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Aula pública
Ao longo de meio século, atores, o Cordão da Bicharada transforma o Carnaval de Cametá em uma grande aula pública de preservação. Através de letras lúdicas e personagens que dão voz à fauna, artistas e contadores de histórias alertam contra a caça e o desmatamento. Hoje, a tradição se renova no Carnaval das Águas, com o grupo chegando de barco para abrir os festejos e celebrar sua conexão íntima com o Rio Tocantins.
“Não há como falar do Carnaval paraense sem falar de Cametá e do Cordão da Bicharada. Por isso eles são os grandes patronos da festa, abrindo os rios com força, honra e alegria”, diz o prefeito.
O Carnaval de Cametá acontece entre os dias 13 e 18 de fevereiro, consolidando-se como uma das festas mais diversas da região Norte do Brasil. Com o tema “Cametá nas Águas da Folia”, o evento une tradição e grandes espetáculos musicais com cortejos fluviais percorrem o Rio Tocantins, levando música e alegria às comunidades ribeirinhas, assim como trios elétricos e festas nas praças, com atrações para todos os públicos.
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Mas se você acha que a única oportunidade de oportunidade de ver o Cordão da Bicharada é durante o Carnaval, se enganou. Na verdade, ele é o ato de abertura para momentos importantes na Vila de Juaba, como o aniversário da vila, que completa 126 anos no dia 19 de março, e o Festival Cultural Juabense, tradicionalmente realizado no mês de junho.
“A porta está aberta para o diálogo o ano todo. Todo mundo tem seus afazeres, mas falar a favor da preservação do meio ambiente é sempre importante. Nossa mensagem está na nas ruas o ano todo”, celebra Zenóbio.


