O relatório GEO Brasil 2025: Estado e Perspectivas do Meio Ambiente, realizado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), foi lançado nesta terça-feira, 18, na COP30, como um “chamado à ação” para o País. O documento, que faz uma avaliação da evolução da agenda climática nas últimas duas décadas, revela um dado alarmante sobre a segurança hídrica: a demanda por água no Brasil deve aumentar oito vezes até 2040.
Como um termômetro da saúde ambiental do País, o GEO Brasil 2025, colaboração do PNUMA, da FGV e do IPEA, indica a urgência de fortalecer a interação entre ciência e políticas públicas.
José Antônio Puppim, pesquisador da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP) e coordenador do FGV Earth, afirmou que o GEO é mais do que um relatório técnico.
“Ele faz perguntas-chave: o que estamos fazendo com o meio ambiente? Quais as consequências? E, principalmente, o que podemos fazer para reverter esse quadro? Além de fortalecer a relação entre ciência e políticas públicas, a publicação oferece um diagnóstico robusto e aponta caminhos para uma transformação sustentável”, destacou.
Os dados do GEO Brasil 2025, o segundo relatório da série após a edição de 2002, mostram que a combinação entre desmatamento e mudanças climáticas já está agravando a insegurança hídrica no Brasil. E a tendência é piorar , uma vez que a demanda por água deve saltar de 188,7 m³/s (registrada em 1970) para impressionantes 1.553,5 m³/s em 2040. Enquanto isso, a poluição do ar causa cerca de 51 mil mortes prematuras por ano.
Riscos produtivos
O avanço da agropecuária sobre ecossistemas nativos segue como uma das tendências mais marcantes do País, elevando a área ocupada de 187,3 para 282,5 milhões de hectares entre 1985 e 2022. No mesmo período, a comercialização de agrotóxicos cresceu 108%, sinalizando maior dependência de insumos em sistemas produtivos expostos a estresse climático crescente.
Outro ponto de alerta é que mesmo com a liderança brasileira em energia renovável, o relatório indica que o setor energético se tornou mais carbono-dependente, passando de 11,3% para 18,3% das emissões nacionais entre 2002 e 2023. Para o agro, esse cenário reforça o desafio de produzir em um ambiente cada vez mais vulnerável às alterações climáticas e com maior competição por insumos e infraestrutura.
Baixa capacidade de gestão ambiental
O GEO Brasil 2025 também destaca que parte dos gargalos ambientais do País tem origem na falta de estrutura institucional. Entre 2001 e 2022, os gastos federais com meio ambiente representaram apenas 0,26% do orçamento, enquanto cerca de 30% dos municípios ainda não possuem infraestrutura básica para gestão ambiental.
A combinação entre baixa capacidade de fiscalização, serviços ambientais frágeis e suporte técnico insuficiente resulta em maior exposição a riscos — especialmente em biomas sensíveis como o Cerrado e o Pantanal, que registraram aumentos históricos de temperatura de até 4 °C e 3 °C, respectivamente.
A precariedade da infraestrutura ambiental se reflete também em indicadores urbanos: apenas 52,2% do esgoto gerado no país é tratado, índice que cai para menos de 20% na região Norte. Para setores produtivos que dependem de água de boa qualidade e estabilidade climática, esses sinais reforçam a necessidade de maior integração entre políticas ambientais e estratégias de desenvolvimento rural.
O pesquisador Carlos Nobre, da USP, presente no lançamento, reforçou o alerta de que o Brasil está diante de uma crise climática sem precedentes.
“O Brasil sofreu muito com eventos extremos nos últimos anos – ondas de calor, secas, enchentes – que já causam milhares de mortes. Além do aquecimento global, enfrentamos um risco gravíssimo: o desmatamento. A Amazônia está à beira do ponto de não retorno, assim como o Pantanal, o Cerrado e a Caatinga. Se não pararmos agora, até 2070 perderemos a maior biodiversidade do mundo, com impactos irreversíveis para a saúde e a economia”, explicou o pesquisador.


