Há 18 anos, agricultoras do interior do Pará têm transformado saberes tradicionais em fonte de renda, autonomia e fortalecimento comunitário. Esse movimento ganha forma por meio da Rede Bragantina de Economia Solidária, iniciativa que desde 2008 reúne produtores rurais e incentiva práticas de agroecologia, comercialização coletiva e valorização do trabalho feminino.
Criada em 2008, a rede nasceu de um processo de construção coletiva ligado à Escola de Formação para Jovens Agricultores de Comunidades Rurais Amazônicas (ECRAMA), em Belém.
Desde então, o objetivo tem sido fortalecer a economia solidária e ampliar as possibilidades de produção e comercialização para agricultores familiares seja em feiras itinerantes ou em propostas inovadoras como o Restaurante da Sociobio, que levou mais de 120 mil refeições a preço justo para a COP30, virando sensação entre os participantes.
Durante entrevista ao Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a agrônoma e coordenadora da rede, Nazaré Ghirardi, explica que a iniciativa surgiu para enfrentar uma realidade comum nas comunidades rurais: o isolamento social e as poucas oportunidades de articulação entre produtores.
“A Rede Bragantina surgiu de um processo de construção coletiva que buscava justamente aproximar as pessoas do campo, criar espaços de troca de experiências e fortalecer homens e mulheres que muitas vezes se sentiam isolados em suas comunidades”, afirma.
Ao longo dos anos, um dos focos principais da rede passou a ser o incentivo ao protagonismo feminino. Historicamente, na agricultura familiar, as atividades de comercialização e negociação eram conduzidas majoritariamente por homens, enquanto grande parte do trabalho realizado pelas mulheres permanecia invisível.
Diante desse cenário, a rede passou a estimular que as próprias agricultoras assumissem a venda de seus produtos em feiras e espaços coletivos. Entre os itens comercializados estão alimentos, artesanatos e derivados da produção local, como colorau, raízes, frutas e plantas medicinais.
Nazaré conta que esses produtos sempre fizeram parte da base alimentar e econômica das famílias, mas não eram reconhecidos como fonte de renda.
“Com o apoio da rede, as mulheres passaram a agregar valor à própria mão de obra, organizar a produção e participar diretamente da comercialização, fortalecendo sua autonomia econômica”, destaca.
Conhecimentos tradicionais
Mais do que ampliar a renda, a proposta da Rede Bragantina também valoriza os conhecimentos tradicionais acumulados pelas mulheres ao longo da vida. Fitoterápicos, garrafadas e pomadas produzidos nas comunidades carregam saberes transmitidos entre gerações e ligados à relação histórica dessas agricultoras com a terra.
“Cada produto não é apenas uma mercadoria. Ele traz consigo saberes tradicionais construídos pela experiência, pela vivência comunitária e pela relação dessas mulheres com o território”, explica a coordenadora.
Os efeitos dessa mobilização têm sido percebidos tanto na dimensão econômica quanto na social. Nazaré relata que uma das mudanças mais visíveis é o aumento da autonomia das mulheres nas comunidades.
“Hoje muitas delas se sentem mais seguras para participar de reuniões, feiras e até conceder entrevistas. Antes, isso gerava muita insegurança”, conta.
A voz das mulheres
Esse processo também ajudou a romper silêncios historicamente impostos às mulheres no meio rural. Gradualmente, elas passaram a expressar opiniões e participar de decisões coletivas com mais confiança.
Nas comunidades quilombolas que produzem fitoterápicos, por exemplo, a participação em feiras com o apoio da rede ampliou a visibilidade do trabalho feminino e gerou recursos para melhorar a infraestrutura das produções.
Além disso, cursos de plantas medicinais e assessorias técnicas contribuíram para organizar pequenas farmácias comunitárias, fortalecendo tanto a geração de renda quanto o atendimento às necessidades locais. Nazaré reforça que o impacto da rede no dia a dia vai muito além da economia.
“Trata-se de um processo educativo e transformador que promove autoestima, liderança e reconhecimento social, valorizando os saberes tradicionais e consolidando o protagonismo feminino nas comunidades rurais”, afirma.
Ao falar diretamente com outras mulheres que desejam atuar na defesa do meio ambiente e na economia solidária, a coordenadora reforça a importância da organização coletiva.
“Busquem se organizar e encontrar espaços de acolhimento que dialoguem com suas necessidades e afetos. É importante olhar para fora e apoiar mulheres que ainda estão isoladas. A educação é a base para o crescimento e para o fortalecimento da presença feminina”, conclui.


