De comida básica das populações ribeirinhas a superalimento com fama global, o açaí teve parte de sua história transformada nos últimos 25 anos. Durante viagens ao Brasil, artistas de renome internacional ajudaram a “descobrir” a chamada “fruta exótica”, impulsionando pesquisas na internet e despertando o interesse do mercado global, reforçado por estudos que apontavam seus benefícios nutricionais.
Com a febre consolidada, cresceram a demanda, o consumo e a produção. Mas a valorização do produto chegou, de fato, a quem está na base da cadeia produtiva?
“Ainda existe muita informalidade no mercado do açaí. Para não ficar para trás, a melhor solução foi empreender. Hoje a gente colhe, distribui e comercializa. Não tem mais atravessador querendo pagar R$ 40 no paneiro e vender por quase R$ 300”, afirma Jesuíno Costa, produtor de 45 anos, morador de Anajás, no arquipélago do Marajó.
O paneiro é o cesto de palha usado no transporte do açaí e comporta entre 20 e 30 quilos do fruto. Jesuíno possui pontos próprios de venda e diz que aprendeu o ofício com o pai, mas aprimorou seus conhecimentos ao longo dos anos negociando com atravessadores.
“Não tinha condição de vender tão barato, mas antes a gente aceitava porque não tinha comprador. Há 20, 30 anos, muito açaí chegava a estragar ou era comido pelos pássaros. Era visto como comida de pobre. O atravessador sempre colocava o preço lá embaixo alegando combustível e despesas, e muita gente aceitava por necessidade. Era vender o almoço para pagar a janta”, relembra.
Com a valorização do fruto no mercado, grande parte da produção de Jesuíno passou a abastecer o próprio município, atendendo hotéis, pousadas e os pontos de venda da família. A combinação entre práticas extrativistas e visão empreendedora transformou a vida da família ao longo de três décadas.
“Antes o açaí era coisa de caboclo. Hoje, hotel chique precisa ter açaí no almoço porque o turista pede, cobra, faz parte da experiência amazônica. Meu pai e meu avô viveram do açaí. Eu e meus filhos vivemos até hoje. Meus netos vão mais longe”, celebra.
Uma das netas do produtor cursa engenharia de produção, em Belém, e o outro neto estuda Ddreito. “Já fico feliz de conseguir colocar meus netos na faculdade graças ao açaí.”
O Pará responde por mais de 80% da produção nacional de açaí, com cerca de 1,7 milhão de toneladas produzidas apenas em 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), os municípios que mais se destacam são Igarapé-Miri, Cametá, Abaetetuba, Mocajuba, Bagre e Anajás. Em maior ou menor escala, todos os municípios paraenses produzem açaí, reforçando a importância do fruto para a economia local.

Em Tomé-Açu, no nordeste do estado, Eduardo Santos, de 25 anos, também construiu sua trajetória a partir do açaí. Produtor há cinco anos, ele mantém um ponto de venda com o apoio da esposa e da irmã. Cresceu acompanhando o pai e os tios na colheita e presenciando as dificuldades da atividade.
“Cansei de andar de madrugada com meu pai e meus tios nas rabetas desde moleque. A gente passava o dia colhendo açaí, do nascer ao pôr do sol. Quando chegava em casa, era só unguento com arnica, andiroba e cânfora, porque dá muita dor nas costas, nos pés e no pescoço. É um trabalho bonito, dá uma paz imensa lá em cima, mas acaba com a coluna”, relata.
Na infância, Eduardo se sentia dividido ao ver os familiares enfrentando dores constantes. Alguns chegaram a buscar emprego na cidade ou em outros municípios, mas os salários baixos não compensavam a mudança da família. O trabalho de peconheiro, uma das formas de chamar o apanhador de açaí, seguia sendo a alternativa mais segura.
“O açaizeiro tem de 15 a 18 metros. A gente sobe com a peconha e o facão na mão ou na boca. Lá em cima corta o cacho, que pesa entre 20 e 25 quilos, e desce rápido para repetir tudo de novo”, explica.
Os riscos são constantes: quedas, facas que podem despencar do alto e acidentes durante a descida. Um dos tios de Eduardo morreu após cair de um açaizeiro.
“Se acontece um acidente, o socorro precisa ser rápido. Mas, dependendo da distância, é quase impossível. A pessoa pode ficar com fratura grave, paralítica ou morrer”, afirma.
Para permanecer no setor sem abandonar o açaí, Eduardo decidiu ocupar diferentes etapas da cadeia produtiva. Além da colheita, investiu no plantio, na comercialização e em um pequeno programa de valorização dos peconheiros, apoiado no conhecimento adquirido na escola.
“Nunca me deixaram faltar aula, mas não fiz faculdade. Aprendi com o sofrimento da minha família e com a observação. Trabalhei com japoneses, ouvia falar de crédito rural e fui juntando as informações. Guardei dinheiro, abri conta, fiz financiamento para montar meu ponto e depois outro para comprar a terra e plantar”, conta.
O programa de valorização prevê pagamento acima da média de mercado e pausas de descanso para reduzir o desgaste físico. Para Eduardo, a iniciativa pode salvar vidas.
“Com todo mundo querendo açaí, tem gente que se afoba e vai além do limite. Mas não pensa que, se morrer, deixa a família sem sustento. Nem sempre correr é o melhor caminho. É como no trânsito: rápido demais, perde a vida”, reflete.

Aos 57 anos, Francisco Juvêncio é um dos que sentem no corpo as consequências do trabalho. Morador de Marapanim, ele iniciou a vida em Chaves, no arquipélago do Marajó, e ficou paraplégico após um acidente na colheita.
“Eu estava há dois dias sem dormir. Queria terminar logo para voltar para casa porque meu pai tinha morrido e meu filho tinha acabado de nascer. Só lembro do frio no peito quando não consegui me segurar. Depois, acordei em Macapá sem saber o que tinha acontecido. A primeira coisa que pensei foi: como vou colocar comida na mesa?”, recorda.
Aos 31 anos, voltou para casa sem condições de trabalhar. O sustento da família passou a depender da esposa e dos filhos adolescentes. Enquanto a mulher vendia verduras e legumes nas feiras, os meninos começaram a colher açaí com a ajuda de amigos do pai.
“Eles tinham medo, mas eu precisava dar coragem. Disse que a burrice tinha sido minha, que com eles ia dar certo”, lembra.
Cinco anos depois, um padre da região conseguiu levar a família para Marapanim, onde os filhos puderam concluir os estudos. Com o tempo, a família adquiriu terras e implantou o próprio plantio de açaí, comercializado até hoje.
Jonas, filho mais velho de Juvêncio, reconhece os avanços trazidos pela popularização do fruto, mas alerta para os desafios que persistem.
“Muita coisa ainda precisa mudar. Quem se acidenta precisa lutar muito para ter seus direitos reconhecidos. Hoje, com o açaí valorizado, a gente vive com mais tranquilidade, mas ainda falta apoio para quem sofre acidentes no interior”, afirma.
Robô como alternativa
Em 2025, durante a COP30, um robô capaz de colher açaí com segurança ganhou destaque ao prometer multiplicar em até quatro vezes a renda de produtores e coletores. A tecnologia foi apresentada como alternativa para reduzir acidentes e aumentar a produtividade. Entre os entrevistados, a inovação desperta expectativas, mas também cautela.

Para Jesuíno, o aumento da renda é atraente, mas os custos ainda pesam. O equipamento é estimado em R$ 19,5 mil, sem contar transporte e manutenção até Anajás.
“Com o Pronaf dá para conseguir desconto, mas precisa ver se vale a pena agora, por causa do custo para trazer e manter. A ideia é boa, tomara que barateie para chegar aqui”, avalia.
Eduardo também vê potencial, mas considera a tecnologia distante da sua realidade atual.
“É incrível, espero que tenha sucesso, mas por enquanto sigo valorizando a mão de obra. Tem muita gente que ainda vive só da colheita do açaí”, diz.
Já Juvêncio enxerga na inovação a chance de reduzir acidentes, mas defende equilíbrio entre tecnologia e tradição.
“Seria bom ver menos gente passando pelo que eu passei. Mas também fico pensando: isso não vai tirar o trabalho de quem vive disso? Não adianta inovar e esquecer das pessoas. Se hoje tem açaí na mesa de gente rica lá fora, é porque algum caboclo daqui subiu no açaizeiro. Essas pessoas não podem ser esquecidas”, conclui.


