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MEIO AMBIENTE 8 de outubro de 2026

Seca e calor extremos do último El Niño ameaçam virar rotina na Amazônia

Estudo aponta a nossa floresta como a mais vulnerável do mundo ao "novo normal" do clima.
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Foto: pedro Guerreiro/Agência Pará
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Resumo

  • O El Niño de 2023-2024 causou secas severas na Amazônia, isolando comunidades, aquecendo lagos (o que provocou a morte de centenas de botos) e intensificando incêndios e desmatamento.
  • Um estudo internacional publicado na revista Earth’s Future aponta que 75% das florestas tropicais enfrentaram meses seguidos de seca e calor extremos, cenário que pode se tornar padrão nos próximos 20 anos sem cortes nas emissões.
  • A Amazônia é a mais vulnerável do planeta. Se as emissões continuarem subindo, a chance de enfrentar secas extremas como a do último El Niño pode ser até nove vezes maior até o fim do século.
  • Sob calor extremo, a floresta perde a capacidade de absorver gases poluentes e passa a emitir carbono, agravando o aquecimento global e intensificando ainda mais as secas.
  • Um novo El Niño já dá sinais na América do Sul e tem previsão de atingir a categoria “muito forte” até o início do verão, com impactos severos potencializados pela crise climática.
  • Cerca de 80% dos meses de calor extremo ocorreram na estação chuvosa. Sem água suficiente no solo na seca, as árvores perdem a capacidade de resfriamento e sofrem danos severos ou morte.
  • Os pesquisadores ressaltam que, embora o cenário exija urgência e cortes rápidos nas emissões, ainda há opções e tempo para agir e mitigar os piores impactos futuros.

Quem vive na Amazônia viu de perto o que o El Niño de 2023-2024 fez: rios tão baixos que isolaram comunidades, lagos quentes demais para os bichos, fumaça e floresta em sofrimento. Agora, um estudo internacional mostra que aquilo pode ser só o começo. As informações são da Agência Fapesp.

A pesquisa, publicada na revista científica Earth’s Future, concluiu que cerca de 75% das áreas de florestas tropicais do planeta passaram por pelo menos seis meses seguidos de seca e calor ao mesmo tempo, em níveis nunca vistos. Segundo os autores, esse cenário será o “novo normal” nos próximos 20 anos se o mundo não reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Entre todas as florestas tropicais, a Amazônia é a região mais vulnerável. Se as emissões continuarem subindo, a chance de o bioma enfrentar secas tão duras quanto as do último El Niño pode chegar a nove vezes mais até o fim do século, mesmo em anos em que o fenômeno não esteja ativo.

Sob tanto calor, a floresta perde a capacidade de fazer o seu papel. Em vez de retirar da atmosfera os gases que esquentam o planeta, ela passa, por um tempo, a soltar carbono no ar. Esse movimento piora o aquecimento, que por sua vez piora a seca e o calor sobre a floresta, num ciclo vicioso. Por isso os pesquisadores pedem cortes rápidos e contínuos nas emissões.

Em todas as regiões tropicais, as temperaturas muito altas devem se tornar pelo menos seis vezes mais prováveis, mesmo no cenário de menos emissões. Esse cenário só vale se, por volta de 2075, o mundo passar a tirar do ar tanto carbono quanto lança, o chamado “emissão líquida zero”.

Um El Niño forte está chegando

O alerta é ainda mais urgente porque o El Niño 2026-2027 já dá sinais. Seus efeitos já podem ser sentidos na América do Sul, e as previsões indicam que ele chegará à categoria “muito forte”, a mais alta, até o início do verão. Com o empurrão da crise climática, caminha para ser o mais intenso já registrado.

“Durante o El Niño de 2023-2024, a área e a duração dos eventos de seca e de ondas de calor foram as maiores e mais extensas dos últimos 25 anos. Quando usamos os mesmos modelos para o futuro, podemos ver que a temperatura está aumentando. Estamos preocupados porque agora pode ser ainda pior, infelizmente”, diz à Agência FAPESP a autora correspondente do estudo, Johanna Van Passel, cientista da Universidade Ghent (Bélgica) e pesquisadora visitante no Instituto de Biologia da Unicamp.

Super El Niño

A força de um El Niño depende de quanto, quão fundo e quão intensamente o Pacífico esquenta, e de como ventos e atmosfera respondem. Nos últimos cem anos, os eventos “muito fortes”, chamados de “super El Niño”, ocorreram em 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016, este último com as maiores temperaturas do oceano.

O de 2023-2024 não chegou a ser um “super El Niño”, mas teve efeitos intensos. Estudos indicam que isso pode ter relação com o aquecimento do planeta: 2024 foi o ano mais quente da história, 1,55 °C acima do nível pré-industrial (1850-1900), seguido por 2023, com +1,45 °C, segundo a Organização Meteorológica Mundial.

“O El Niño de 2015-2016 foi muito forte, mas o impacto de 2023-2024 foi maior. Quando olhamos para o futuro, esses eventos extremos podem ficar ainda piores. Mas dependerá muito da trajetória das emissões de gases de efeito estufa e do uso de combustíveis fósseis que a nossa sociedade vai adotar. A diferença entre o cenário mais baixo e o mais alto é grande. A previsão é ruim, mas temos opções. Não é tão terrível que não possamos fazer nada. Temos de agir”, conclui Van Passel.

Como os cientistas chegaram a esses resultados

A equipe juntou dados de satélite e de observações com projeções de 24 modelos de clima, em quatro cenários de emissões. Olhou para o passado recente (2000 a 2024) e para o futuro, até 2100. Para decidir o que conta como “extremo”, comparou cada local com o seu próprio clima de sempre. Assim, foi possível considerar florestas de diferentes continentes, adaptadas a condições muito diferentes.

O biólogo Peter Groenendijk, professor da Unicamp e coautor, destaca que o estudo comparou a seca e o calor de um único El Niño com cenários futuros, e foi assim que apareceu esse “novo normal”. Para ele, usar vários modelos ao mesmo tempo deu mais solidez às conclusões.

Groenendijk estuda os anéis de crescimento das árvores, que guardam o registro da vida de cada uma, e vê nos resultados uma chance de entender melhor a floresta.

“O El Niño é um dos grandes moduladores do clima global. Ao procurarmos entender seus impactos, podemos ter diversos outros desdobramentos para as florestas, como compreender mecanismos que levam à mortalidade das árvores”, afirma.

A pesquisa dele tem financiamento da FAPESP. Van Passel, que investiga como calor e seca extremos afetam o crescimento e a morte das árvores, principalmente na Amazônia, diz que os resultados vão ajudar seu trabalho.

Calor na época da chuva e da seca

Em todos os modelos, cerca de 80% dos meses de calor extremo caíram na estação chuvosa. Isso é importante porque a fotossíntese, processo em que a planta transforma luz em energia, reage de maneira diferente em cada época.

Na estação chuvosa, mais sol e menos nuvens podem até ajudar a árvore, que tem luz e água de sobra para “suar” e refrescar as folhas. Na estação seca, acontece o contrário: sem água no solo, a árvore não consegue se resfriar, os canais que levam a água pelo tronco podem falhar e parte da copa morre.

Quando seca e calor se juntam por muito tempo, o dano é maior e as árvores ficam mais fracas. Os cientistas reconhecem que ainda entendem pouco como tudo isso acontece.

A chuva também não muda igual em todo lugar. Amazônia, América Central, sul da África e parte do leste da Ásia devem ficar mais secas, enquanto o resto dos trópicos tende a ficar mais úmido.

Até 2100, nos dois cenários de maiores emissões, os baixos índices de chuva de 2023-2024 podem se tornar de duas vezes mais prováveis (no Nordeste do Brasil) a nove vezes mais prováveis (na Amazônia).

A floresta que já vive o futuro

Dois estudos de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), focados na Amazônia brasileira, apontam na mesma direção. Eles mostram que o bioma já registra o que só era esperado para as próximas décadas: a estação seca está mais longa, passando de quatro para até seis meses, e o déficit de chuva superou 150 milímetros.

No El Niño 2023-2024, as áreas queimadas cresceram 9% em média e os alertas de degradação da floresta subiram 19%. Para os autores, isso indica um ciclo de seca, fogo e degradação ganhando força, que reduz a capacidade da floresta de se recuperar.

Para quem vive na floresta

Quando a floresta perde força, o prejuízo vai além das árvores. Ela regula o clima, controla o carbono e abriga a biodiversidade. Isso mexe com o sustento das populações locais e com a economia do mundo.

O El Niño anterior mostrou isso na prática. Os rios da Amazônia baixaram até os menores níveis já medidos e deixaram comunidades isoladas. Com a água dos lagos mais quente, houve o registro inédito da morte de mais de 300 botos.

Em um único dia de 2023, com a água acima de 39 °C, voluntários encontraram 70 carcaças. Segundo o MapBiomas, 38% das ocupações humanas da região amazônica, ou 2.172 das 5.673 localidades, ficaram muito expostas à seca entre setembro e novembro de 2024.

Agência Fapesp Amazônia El Niño florestas tropicais PRINCIPAL seca
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