Resumo
- Pesquisa com 19 cientistas da Rede Amazônia Sustentável (RAS) e de instituições internacionais/nacionais (como Embrapa, USP, Inpe, Oxford e Cambridge) comprova que proteger florestas em pé traz mais retornos ecológicos e financeiros por real investido do que restaurar áreas desmatadas.
- O estudo analisou Paragominas e Santarém, no Pará, cobrindo mais de 3 milhões de hectares com cruzamento de dados de biodiversidade em 381 áreas, informações de 499 propriedades rurais e imagens de satélite de 2010 a 2020.
- Evitar degradação (fogo e extração ilegal) teria contido 68% da perda de biodiversidade e 47% de carbono.
- Impedir o desmatamento evitaria 28% da perda de biodiversidade e 61% de carbono.
- A restauração isolada compensou apenas 6% da perda de biodiversidade e 15% da de carbono.
- Para a biodiversidade, prevenir a degradação é 3 vezes mais econômico do que conter o desmatamento e 15 vezes superior à restauração. Mesmo com redução simulada de 95% no custo da restauração, prevenir continuou sendo mais vantajoso.
- No período analisado, a degradação (274 mil ha) superou o desmatamento direto (159 mil ha). Além disso, 63% das florestas secundárias em regeneração foram destruídas novamente pelo fogo.
- Os melhores resultados ocorrem ao somar as três frentes (conter desmatamento, evitar degradação e restaurar), permitindo um aumento de 22% na biodiversidade e 42% no estoque de carbono em relação a 2010.
- Pesquisadores defendem a inclusão do controle do fogo e do manejo florestal no centro de políticas como o PPCDAm, Planaveg, Código Florestal, mercado de carbono e programas de REDD+, exigindo também maior responsabilidade de cadeias produtivas globais (como carne e soja).
Evitar o desmatamento e a degradação das florestas tropicais gera mais benefícios para a biodiversidade e o clima, por real investido, do que restaurar áreas já convertidas. É a conclusão de um estudo publicado na revista Science, conduzido por 19 pesquisadores de instituições como Universidade de Lancaster, Embrapa Amazônia Oriental, Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), Oxford, Cambridge, Manchester Metropolitan, Exeter, Esalq/USP, Inpe e Museu Paraense Emílio Goeldi, sob liderança da Rede Amazônia Sustentável (RAS).
A pesquisa analisou Paragominas e Santarém, no Pará — duas regiões da fronteira agrícola amazônica que somam mais de 3 milhões de hectares. Os cientistas cruzaram dados de biodiversidade coletados em 381 áreas de amostragem distribuídas por 38 microbacias, informações socioeconômicas de 499 propriedades rurais entrevistadas e imagens de satélite de alta resolução, reconstruindo as mudanças ocorridas na região entre 2010 e 2020.
A partir disso, simularam o que teria acontecido em diferentes cenários, testando três estratégias de conservação — isoladas e combinadas: conter o desmatamento, evitar danos de incêndios e extração de madeira, e restaurar vegetação para cumprir o Código Florestal.
Prevenir compensa mais do que restaurar
Os números mostram uma diferença expressiva entre as estratégias. Evitar incêndios e extração de madeira teria mitigado 68% das perdas de biodiversidade e 47% das perdas de carbono observadas no período. Impedir o desmatamento evitaria 28% das perdas de biodiversidade e 61% das perdas de carbono. Já a restauração, sozinha, compensaria apenas 6% e 15% dessas perdas, respectivamente.
“Uma floresta não está necessariamente protegida apenas porque continua aparecendo como floresta nas imagens. Incêndios, exploração de madeira e efeitos de borda podem retirar biodiversidade e carbono sem eliminar completamente a cobertura florestal. Essa degradação precisa ocupar um lugar muito mais central nas políticas de conservação”, afirma Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster e autor sênior do estudo.
Os números da própria região estudada ilustram o problema: no período analisado, foram registrados 159 mil hectares de desmatamento e 274 mil hectares de florestas primárias atingidas por fogo ou extração de madeira. Outros 130 mil hectares passaram por regeneração — mas 63% dessas florestas secundárias voltaram a ser afetadas pelo fogo.
“A restauração é indispensável para recompor áreas protegidas, conectar fragmentos e recuperar funções ecológicas”, explica Leonardo de Sousa Miranda, pesquisador da Universidade de Lancaster e um dos autores principais do artigo. “O estudo mostra, porém, que ela não consegue compensar sozinha as perdas enquanto o desmatamento e a degradação continuam avançando. Restaurar sem proteger é tentar repor continuamente algo que segue sendo destruído.”
A conta não fecha
Ao incluir os custos econômicos de cada estratégia, a diferença cresce. Para a biodiversidade, evitar perturbações florestais teve um índice de custo-efetividade cerca de três vezes maior do que impedir o desmatamento, e quase 15 vezes superior ao da restauração.
Para o carbono, evitar o desmatamento teve o maior retorno, seguido pelo controle da degradação e, por último, pela restauração. Mesmo quando os pesquisadores simularam uma redução de até 95% no custo de restaurar, essa estratégia continuou sendo menos custo-efetiva do que as medidas preventivas.
O que realmente funciona
Isso não significa que restaurar deva ser abandonado — pelo contrário. Os maiores ganhos apareceram quando as três estratégias foram aplicadas juntas: nesse cenário combinado, a biodiversidade cresceria 22% e os estoques de carbono, 42%, em relação ao patamar de 2010.
A lógica é de reforço mútuo: florestas preservadas ajudam áreas vizinhas a se recuperar, enquanto o controle do fogo permite que a vegetação em regeneração sobreviva e amadureça.
“Não existe uma única solução capaz de responder à crise das florestas tropicais. Precisamos proteger as áreas remanescentes, impedir que elas sejam degradadas e restaurar territórios estratégicos”, reforça Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e coautora da pesquisa.
Segundo ela, investir só em restauração faz pouco sentido enquanto florestas maduras continuam sendo degradadas — daí a importância de integrar agendas, como incluir brigadas de combate a incêndio dentro de programas de restauração. “O estudo oferece uma base para decidir onde e como combinar as diferentes ações de maneira eficiente.”
O que isso muda nas políticas públicas
Os autores defendem que prevenir incêndios e extração ilegal de madeira, garantir que a exploração madeireira autorizada siga as regras de manejo sustentável, reduzir o uso do fogo em áreas rurais sempre que possível e fortalecer brigadas locais passem a ocupar posição central nas estratégias de clima e biodiversidade. Tudo isso amplia um foco que, até hoje, esteve concentrado sobretudo no desmatamento e, mais recentemente, na restauração.
No Brasil, os resultados dialogam diretamente com políticas já existentes, como o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e a aplicação do Código Florestal.
Também podem orientar programas de REDD+, projetos de mercado de carbono e decisões de financiamento climático, ao mostrar que recursos destinados à restauração rendem menos quando não vêm acompanhados de investimento na proteção das florestas que ainda restam.
“Em termos internacionais, é necessário que as empresas e os mercados que se beneficiam de commodities, como soja e carne bovina, assumam a responsabilidade não apenas pelo desmatamento, mas também pela degradação das florestas remanescentes, que está intrinsecamente ligada a esses sistemas de produção na Amazônia”, afirma Toby Gardner, coautor do estudo, pesquisador sênior do Stockholm Environment Institute e cofundador da Trase, iniciativa de sustentabilidade em cadeias de suprimentos.
Embora concentrado em duas regiões da Amazônia Oriental, o estudo tem implicações para outras florestas tropicais submetidas simultaneamente a desmatamento, fogo, exploração madeireira e expansão agropecuária — paisagens onde acompanhar apenas a perda total de cobertura vegetal pode esconder uma parcela decisiva dos impactos sobre biodiversidade e clima.


