Resumo
- As mudanças climáticas e o desaparecimento de línguas indígenas ameaçam apagar um quarto (25%) do conhecimento sobre o uso de plantas na Amazônia até o fim do século.
- Hoje, as comunidades usam quase 5,8 mil espécies de plantas para remédios, comida, rituais e construções. Estima-se que até 23% desses usos tradicionais possam sumir.
- Pesquisadores estimam que o aquecimento global fará a Amazônia perder entre 28% e 34% de suas espécies de plantas locais até 2080, dependendo das ações climáticas globais.
- Mais da metade do conhecimento sobre essas plantas foi registrado em 156 línguas indígenas, mas 56% desses idiomas correm o risco de sumir.
- A Amazônia abriga mais de 10% da biodiversidade da Terra e 400 povos indígenas, mas já possui cerca de 300 milhões de hectares de áreas degradadas.
As sociedades amazônidas usam quase 5,8 mil espécies de plantas, mas as mudanças climáticas podem reduzir as espécies vegetais nativas em um terço, representando um perigo para sua cultura e conhecimento. O alerta vem de um estudo publicado na Nature e realizado por Rodrigo Camara-Leret e Jordi Bascompte, da Universidade de Zurique, e Patrick Roehrdanz, do Centro Moore para a Ciência da Conservation International.
Com isso, práticas ligadas à alimentação, à medicina, à construção, aos rituais e a outras atividades do cotidiano podem se perder para sempre, diz o estudo. Pelas projeções dos pesquisadores, entre 18% e 23% dos usos associados às plantas podem desaparecer nas comunidades analisada.
“Isso significa que cerca de um terço das espécies de plantas utilizadas pelos povos indígenas na Amazônia terá uma alta probabilidade de desaparecer localmente, a menos que sejam adotadas medidas específicas de manejo”, alerta Rodrigo Cámara Leret, autor do estudo.
Segundo a pesquisa, a redução das plantas de importância cultural, somada à extinção projetada de línguas indígenas, pode resultar ainda na perda de cerca de um quarto do conhecimento documentado sobre os usos de espécies vegetais amazônicas até o fim do século.
Os pesquisadores reuniram mais de 90 mil registros do uso de plantas amazônicas por Povos Indígenas feitos entre 1504 e 2023. A partir da análise desses relatos bibliográficos, também avaliaram a situação das línguas em que os registros foram escritos. Mais da metade dos relatos sobre plantas nativas foi registrada em 156 línguas indígenas, das quais 56% estão ameaçadas de extinção.
Os cientistas ainda modelaram os impactos das mudanças climáticas sobre a distribuição das espécies entre 2060 e 2080 em três cenários: cumprimento das metas climáticas até meados do século; adoção de ações mínimas de mitigação; e sem políticas de intervenção.
As projeções indicam perdas médias locais de espécies vegetais de 28%, 30% e 34%, respectivamente, em cada um dos cenários analisados. Segundo os autores, essas reduções podem ter consequências críticas para as sociedades amazônicas, ao comprometer a biodiversidade.
A Floresta Amazônica é um centro global de patrimônio biológico e cultural, abrigando mais de 10% da biodiversidade terrestre do planeta e mais de 400 grupos indígenas. No entanto, quase 300 milhões de hectares da Bacia Amazônica já foram degradados ou fragmentados, e muitas culturas indígenas e suas línguas estão ameaçadas de extinção, reforça Victoria Reyes-García, pesquisadora da Universidade Autônoma de Barcelona, em um comentário que acompanha o estudo.
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