A ocupação iniciada por lideranças indígenas no porto da Cargill, em Santarém, completa nesta sexta-feira, 20, um mês e já reúne cerca de 1.200 pessoas. O movimento, que teve início com os povos indígenas do Baixo Tapajós, agora reúne também representantes do Médio e Alto Tapajós, além de delegações Kayapó e Panará, ambas vindas do Mato Grosso. Eles pedem a revogação do Decreto 12.600/2025, que privatiza rios da região, como o Tocantins, Madeira e o Tapajós.
Na última quinta-feira, 19, um ato simbolico da nova fase da mobilização aconteceu no Rio Tapajós, após um grupo de 400 indígenas, distribuídos em quatro embarcações, interceptarem uma balsa de grãos em frente ao porto da Cargill. Segundo a Amazon Watch, o principal objetivo do manifesto foi chamar a atenção da sociedade e do poder público para os impactos da transformação dos rios amazônicos nos corredores de exportação. A mobilização que já ganhou terra e redes sociais agora chega aos rios.
Para os manifestantes, o decreto que inclui os rios no Programa Nacional de Desestatização (PND) amplia a possibilidade de concessões e intervenções que podem afetar diretamente o ecossistema e o modo de vida das populações indígenas.

As comunidades defendem a autonomia de seus territórios tradicionalmente ocupados e a preservação de práticas ligadas à dinâmica natural dos rios, como a pesca e a agricultura artesanal.
Em entrevista ao site Um Só Planeta, a liderança indígena do Médio Tapajós, Alessandra Munduruku, afirma que a mobilização conjunta ocorre porque os povos têm consciência de que o decreto pode ameaçar diferentes comunidades da região. Segundo ela, o movimento atua em defesa do futuro territorial da Amazônia.
“Ela (a mudança promovida no decreto) não afeta só o rio. Ela afeta também outros territórios que, muitas vezes, não têm rios grandes, mas têm igarapés. Quando esse decreto aumenta a soja nas regiões, que já está avançando na Amazônia, isso atinge tudo”, frisa.
Reflexo em outras bacias
As delegações Kayapó e Panará, do Mato Grosso, também demonstram preocupação com os possíveis impactos da inclusão dos rios no programa de desestatização. Para esses povos, a medida pode gerar reflexos em outras bacias hidrográficas e territórios conectados à expansão do agronegócio.
Entre os principais pontos de alerta está o aumento da pressão fundiária próximo a áreas como o território Capoto-Jarina, que, segundo eles, pode sofrer impactos indiretos relacionados à infraestrutura da BR-163 e ao projeto da Ferrogrão (EF-170).
Na avaliação das lideranças, o decreto faz parte de uma política que prioriza a exportação de commodities e pode alterar dinâmicas ambientais em regiões que dependem de igarapés, nascentes e sistemas hídricos interligados. Para eles, a mobilização representa uma ampla frente indígena em defesa dos rios e dos povos da Amazônia.

Até o momento, a principal resposta do governo federal foi a suspensão do pregão para a dragagem no Rio Tapajós, anunciada no dia 6 de fevereiro. Para as mais de 1.200 pessoas que permanecem acampadas, no entanto, a medida não é suficiente. Alessandra reforça que a única solução aceita pelas lideranças é a revogação do decreto.
“Enquanto o Lula não revogar esse decreto, a luta vai aumentar”, alerta.
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