O Pará aparece como o território mais crítico no novo mapeamento da plataforma PrevisIA, concentrando 36% do risco de desmatamento projetado para toda a Amazônia em 2026. Além de liderar o ranking estadual de vulnerabilidade — que estima uma ameaça sobre 5.501 km² de floresta no bioma —, o estado também detém os índices mais alarmantes nas categorias de municípios, terras indígenas e unidades de conservação sob pressão.
A ferramenta desenvolvida pelo Imazon em parceria com a Microsoft e o Fundo Vale alcançou, nos últimos cinco anos, uma assertividade média de 68% em um raio de até 4 km das áreas monitoradas. Utilizando inteligência artificial, a tecnologia é considerado peça-chave para sustentar a queda na destruição da floresta e garantir que o Brasil cumpra o compromisso de desmatamento zero até 2030, direcionando fiscalização e recursos para onde a pressão sobre a vegetação nativa é mais crítica.
“A assertividade da PrevisIA reduziu em 2025 com a queda do desmatamento, o que foi muito positivo para o Brasil, país anfitrião da COP30. Além disso, se tivermos acesso aos dados sobre as áreas onde ocorreram as operações de combate ao desmatamento em 2025, poderemos estimar o quanto de floresta foi efetivamente poupada, fornecendo evidências irrefutáveis de que as intervenções conseguiram evitar a destruição”, afirma Carlos Souza Jr., coordenador do programa de Monitoramento da Amazônia do Imazon, instituto de pesquisa que criou a ferramenta.
Além de indicar as áreas, a ferramenta ainda as classifica conforme cinco categorias de risco: muito alto, alto, moderado, baixo e muito baixo.
“O objetivo dessa classificação é fornecer informações detalhadas do risco de desmatamento para governos, setor privado e sociedade em geral, para apoiar ações preventivas. No final do ano, queremos que a PrevisIA erre a previsão. Ou seja: que essas florestas e seus serviços ambientais sejam protegidos e as emissões de carbono sejam evitadas”, completa Souza Jr.
Para 2026, a PrevisIA indicou que 1.686 km² de floresta estão sob risco muito alto ou alto de desmatamento, o que representa 31% do total. Outros 1.056 km² (20%) estão sob ameaça moderada e 2.759 km² sob risco baixo ou muito baixo (50%).
“Evitar a derrubada nessas áreas pode inclusive viabilizar mecanismos de finanças florestais para pagamentos por desmatamento evitado na Amazônia”, indica o pesquisador.
A estimativa da ferramenta segue o chamado “calendário do desmatamento”, que vai de agosto de um ano a julho do ano seguinte, assim como os dados oficiais do governo federal. Conforme o Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram devastados 5.112 km² entre agosto de 2024 e julho de 2025, o que representa uma queda de 18% em relação ao período anterior.
“Além de analisar o risco de desmatamento com a PrevisIA, acompanhamos também como as estradas estão avançando na Amazônia, já que costumam abrir caminho para novas derrubadas. Inclusive, já conseguimos estimar onde há risco de novas estradas surgirem, o que ajuda a antecipar áreas de risco do desmatamento. Esse modelo de risco de expansão de estradas foi publicado recentemente na revista científica PNAS, e todos esses dados já estão disponíveis ao público no site previsia.org.br“, afirma Stefany Pinheiro, cientista de dados da plataforma.
Desde 2020, a análise espacial mostra que o desmatamento ocorre majoritariamente próximo às vias de acesso, com cerca de 95% da derrubada concentrada a até 5,5 km de distância de uma estrada. “Isso evidencia a forte associação entre abertura de estradas e o avanço do desmatamento na Amazônia, reforçando a importância de monitorar essa dinâmica para antecipar as áreas sob maior pressão”, completa Pinheiro.
Amazonas e Mato Grosso completam o pódio
Além do Pará, com seus 36%, a PrevisIA indica que Amazonas (18%) e Mato Grosso (18%) lideram o ranking de riscos de desmate. Apenas os três concentram 72% de todo o território ameaçado na Amazônia, somando 4.049 km² sob risco.
A importância do monitoramento nos estados reflete-se em parcerias estratégicas, como explica a pesquisadora Alexandra Alves.
“A análise estadual é importantíssima para que os órgãos competentes possam atuar em defesa da Amazônia. No Pará, por exemplo, o Imazon possui parceria com o Ministério Público Estadual (MPPA) e com a Defensoria Pública do Estado (DPE-PA) para usar a PrevisIA em ações de prevenção ao desmatamento em solo paraense”.
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Metade dos municípios ameaçados estão no Pará
A ferramenta também possibilita análises municipais, favorecendo a adoção de políticas públicas pelas secretarias de meio ambiente e demais órgãos ligados às prefeituras na proteção da floresta”, de acordo com a pesquisadora.
Para 2026, apenas os 10 municípios com maior área sob risco de desmatamento concentram 20% de toda a área ameaçada na Amazônia. Metade deles está no Pará, dois no Amazonas, dois em Mato Grosso e um em Rondônia.
Os líderes do ranking são os paraenses São Félix do Xingu e Altamira, municípios historicamente ligados à expansão do desmatamento na Amazônia.
Além deles, as cidades amazonenses de Apuí, que ficou em quarto lugar, e de Lábrea, em sexto, chamam a atenção por se localizarem na Amacro, região de expansão agrícola na divisa do Amazonas com o Acre e Rondônia.

Dez terras indígenas concentram 44% do risco
Para 2026, a PrevisIA estimou 357 km² sob ameaça de devastação em territórios indígenas, sendo 44% apenas nas 10 mais ameaçadas. A liderança do ranking ficou com a Terra Indígena Kayapó, no Pará, com 31 km² sob risco. Em 2024, o território possuía a maior área de garimpo ilegal na Amazônia, segundo o MapBiomas. Por isso, em julho de 2025, o governo federal iniciou uma operação de desintrusão no território.
“Ações como essa podem impedir o avanço do desmatamento ilegal no território e são necessárias para as outras terras indígenas que estão entre as mais ameaçadas da Amazônia”, afirma Souza Jr.
Além do Kayapó, outros cinco territórios indígenas paraenses possuem as maiores áreas sob risco de derrubada: Parque do Xingu (que também possui parte da área em Mato Grosso), Apyterewa, Alto Rio Guamá, Cachoeira Seca e Munduruku. Isso faz o e\Estado ser o mais crítico para a proteção dos povos originários e suas florestas na Amazônia, segundo a PrevisIA. Amazonas, Mato Grosso, Roraima e Maranhão também possuem terras indígenas entre as 10 mais ameaçadas.

Unidades de Conservação Estaduais são as mais críticas
A PrevisIA também indicou 598 km² de desmatamento em unidades de conservação, sendo 339 km² (57%) em áreas estaduais, 246 km² em federais (41%) e 12 km² em municipais (2%). “Esse dado reforça a necessidade dos estados atuarem fortemente na proteção desses territórios, com foco nos mais ameaçados”, comenta Pinheiro.
Apenas as 10 unidades de conservação sob maior ameaça na Amazônia concentram quase metade de todo o risco de desmatamento dentro desses territórios, segundo a PrevisIA. A liderança do ranking ficou com a APA Triunfo do Xingu, no Pará, e com a Resex Chico Mendes, no Acre, ambas que figuram há anos entre as mais desmatadas na Amazônia.



