A Agência Nacional do Petróleo (ANP) inicia, entre os dias 2 e 7 de fevereiro, uma auditoria de segurança na sonda operada pela Petrobras na bacia da Foz do Amazonas. A fiscalização é uma resposta ao vazamento de 18 mil litros de fluido de perfuração ocorrido em 4 de janeiro no poço exploratório “Morpho”, localizado no bloco 59, a 175 km da costa do Amapá.
O incidente paralisou as atividades e reacendeu o alerta sobre os riscos estruturais da exploração de petróleo em uma das regiões ecologicamente mais sensíveis do planeta.
E o vazamento não parecer ser um caso isolado. Levantamento da InfoAmazonia com dados da própria ANP revela um cenário preocupante: desde 1970, uma em cada quatro tentativas de perfuração na costa amazônica foi interrompida por acidentes mecânicos.
Na bacia da Foz do Amazonas, o índice de falhas atinge 28% — uma frequência de um acidente a cada 3,5 poços. Em Barreirinhas, no Maranhão, o cenário é ainda mais crítico, com 35% das perfurações paralisadas por problemas mecânicos.
Esses números superam drasticamente a média nacional de 7% e os índices das bacias de Campos (7%) e Santos (5%), evidenciando que a complexidade oceânica da região amazônica impõe desafios que a tecnologia atual ainda não neutralizou totalmente.
A perfuração no bloco 59 segue suspensa por determinação da ANP e só poderá ser retomada após a conclusão da auditoria, que focará no Sistema de Segurança Operacional. A Petrobras tem 90 dias para apresentar um relatório detalhado sobre as causas do incidente.
Riscos ambientais
Embora a Petrobras afirme que o fluido vazado (conhecido como “lama”) é biodegradável e de baixa toxicidade, entidades como o Greenpeace e o Instituto Arayara classificam o episódio como um “prenúncio do pior”. O vazamento ocorreu a 2.700 metros de profundidade, em uma área de correntes marítimas intensas e próximas ao Grande Sistema de Recifes da Amazônia (GARS).
Povos indígenas e comunidades tradicionais do Oiapoque também se manifestaram, classificando o vazamento como um “alerta final”. Eles denunciam a falta de transparência e o descumprimento do direito à consulta prévia, destacando que um acidente com óleo cru atingiria diretamente a maior faixa contínua de mangues do Brasil e territórios ancestrais.


