Por Tereza Coelho
Como frear o desmatamento e o avanço das monoculturas na Amazônia? Para moradores de Igarapé-Miri, no Baixo Tocantins, a solução passa pela valorização da floresta e pelo fortalecimento de seus produtos naturais.
A forma mais eficiente encontrada pela comunidade para garantir renda e proteção ambiental foi a criação de negócios de impacto e cooperativas, que se consolidam como alternativas concretas para conciliar propósitos econômicos e ecológicos.
Um desses exemplos é a Tribo Super Foods, que aposta em sistemas agroflorestais para valorizar a biodiversidade local.
Maurício Pantoja, cofundador da iniciativa e natural de Igarapé-Miri, conta que o açaí sempre foi vital para as famílias, mas o avanço da monocultura do fruto trazia riscos.
“As pessoas estavam derrubando suas áreas para plantar unicamente o açaí, o que não é sustentável a longo prazo do ponto de vista econômico e muito menos do ponto de vista ambiental. Daí veio a consolidação da Tribo, para mostrar o valor da floresta em pé através de um trabalho organizado e sustentável da terra ao produto, de ponta a ponta”, diz.
A estratégia da empresa foca em estruturar cadeias produtivas baseadas no extrativismo de açaí, cacau e cupuaçu. A proposta é simples, direta e estratégica: quanto maior a diversidade da floresta, maior a resiliência produtiva, especialmente em um cenário de crise climática.
Atualmente, 346 famílias de Igarapé-Miri e Abaetetuba, ambas no Baixo Tocantins, integram a rede de fornecimento. O modelo exige impactar mais pessoas para crescer: quanto maior a venda, mais comunidades são envolvidas e mais áreas são protegidas.

“Para atender à demanda prevista para este ano, devemos chegar a pelo menos 720 famílias. Parte delas está organizada em três cooperativas, mas pretendemos inaugurar uma nova, chegando a quatro cooperativas”, explica.
Maurício conta que um grande indicativo do sucesso do empreendimento vem da adesão das comunidades. Para ele, mais pessoas envolvidas é igual a mais floresta em pé.
Resiliência contra a crise climática
Diferente da monocultura, os sistemas agroflorestais mantêm a umidade do solo e reduzem a exposição ao calor extremo. Em 2024, quando a Amazônia registrou uma das menores safras de açaí devido à seca e às queimadas, as áreas diversificadas resistiram melhor. Como o açaí é uma planta nativa que cresce sob a proteção de outras árvores, a falta dessa cobertura vegetal nas monoculturas prejudicou severamente a produtividade.

Além do impacto ambiental, o negócio foca na educação dos cooperados e na expansão de mercado.
“Somos muito limitados sozinhos. A transformação acontece de verdade quando somamos forças e compartilhamos conhecimentos”, declara.
Embora o maior volume de vendas esteja no Nordeste e Sudeste do Brasil, a empresa avança nas exportações para o Oriente Médio e Ásia. Para Maurício, o impacto contínuo só é garantido com mercado e compradores reais.
“A Amazônia precisa ser vista como um lugar capaz de gerar riqueza de forma sustentável. Doações não sustentam negócios no longo prazo. O que garante impacto contínuo é mercado, é comprador”, avalia.


